O falso dilema americano
As cartas estão na mesa e não há renúncia.

As cartas foram distribuídas pela mesa. Olhamos para o jogo: temos dois idosos na mão. Um tem 78 anos e o outro tem 81. Ambos desafiaram a esperança de uma nação e têm agora uma dívida com a ciência – nos Estados Unidos da América (EUA) espera-se que um homem respire ininterruptamente durante cerca de 75 anos. Joe Biden tem 81 e parece que continua a fazê-lo com relativa competência. Donald Trump, no entanto, no auge dos 78, parece um jovem ao seu lado, e isso não deixa de preocupar os cidadãos que se tomam por responsáveis. Mas quem é que baralhou isto?
Imagine, caro leitor, que se prepara para partir numa viagem de quatro anos. Entra num autocarro (porque é a viatura que melhor serve o propósito que pretendo ilustrar com esta metáfora) e, por se tratar de uma excursão longa, repara que a companhia destacou dois motoristas para o serviço. Dois homens muito pouco castiços: Donald John Trump e Joseph Robinette Biden Jr. Provavelmente, dadas as circunstâncias, o leitor sairia imediatamente do automóvel. Seria uma decisão sensata e fácil de tomar, sobretudo se lhe assiste o privilégio de não ter qualquer responsabilidade no desfecho das eleições presidenciais dos EUA. Este autocarro não é para si; os passageiros que apertem bem os cintos de segurança.
A humanidade reconhece que os condutores anciãos demonstram uma habilidade acima da média para criar constrangimentos no trânsito, por isso, pede-lhes que renovem as suas cartas de condução com mais frequência e sempre mediante a apresentação de um atestado médico. É um ato louvável de prudência e responsabilidade, mas a humanidade consegue ser bastante incoerente: somos mais exigentes com quem dirige carros do que com quem dirige países.
Voltando ao jogo, temos dois idosos na mão. De um lado, um reputado criminoso acusado de dezenas de crimes e a ser investigado por outros tantos; um homem rude e mal-acabado, que não gosta de pagar impostos nem de mulheres que falem muito. Um manipulador crónico e o principal responsável, entre outros infortúnios, pela importação do discurso de tasco para o modus operandi da política norte-americana e ocidental. "It's a disaster". Do outro lado, um senhor reverente e ponderado, sem registo criminal nem convicções pessoais polémicas que sejam conhecidas, mas cuja falta de vigor é evidente. Um octogenário hesitante e tropeço, de fala lenta e, por vezes, incompreensível, que perde regularmente a linha de raciocínio durante os discursos, confunde nomes e tem o mesmo olhar de uma criancinha perdida num supermercado. São estas as nossas cartas. Não há renúncia, ou há?
Após o debate que opôs os dois candidatos, no dia 27 de junho, a contestação sobre a candidatura de Joe Biden à Casa Branca avolumou-se, particularmente no interior do próprio Partido Democrata. As críticas internas partem de várias frentes, mas convergem no essencial: o atual presidente dos EUA mostra-se incapaz de desempenhar o cargo a que se propõe ser eleito, e isso é por demais evidente. Os democratas querem outro candidato, mas os apelos para que Biden desista da corrida não o demovem e, ao que tudo indica, não vão demover – de um lado, um velhote teimoso; do outro, um velhote absolutamente execrável.
Está oficialmente aberta a época da política do mal menor. Donald Trump é um papalvo, e qualquer primata que se lhe opusesse seria preferível para ocupar o lugar de onde foi escorraçado em 2020. Votar em Biden não é desejável e não é um ato de liberdade, mas é um imperativo de dever.