Elogio da Insensatez

31-12-2023

Contra a inépcia social e contra as violações grosseiras das regras de circulação, a luta continua.


No outro dia, a minha mãe confessou-me ter vindo a sentir que há muita gente que circula desengatada pela vida. Eu concordo com a observação. Aliás, tenho bons motivos para acreditar que entre as características que os filhos herdam dos pais, as irritações estão incluídas. 

Uma breve pesquisa sobre o fenómeno da hereditariedade, levou-me à descoberta do conceito de fenótipo, que no âmbito da genética se refere às particularidades físicas, ou comportamentais, que não estão inscritas nos cromossomas. As que estão, são designadas de genótipos e referem-se, por exemplo, à cor dos olhos ou do cabelo. Assim sendo, posso afirmar que dos meus pais herdei a pigmentação da vista, da pilosidade e, em parte, a capacidade de me irritar com as mesmas coisas que eles.

A circulação em escadas rolantes é uma questão sobre a qual, aparentemente, não há muito a dizer. No entanto, basta circular por um centro comercial, por exemplo, para constatar que grande parte das pessoas revela imensas dificuldades em fazê-lo convenientemente. Para começar, a regra firmada no código da estrada que ordena a que a circulação seja feita sempre o mais à direita possível, raramente é cumprida, o que causa óbvios constrangimentos a pessoas com pressa. Mas pior que impedir a ultrapassagem é obstruir a passagem, e sobretudo obstruí-la à saída das escadas rolantes, onde não há muito espaço para que os pedestres se possam aglomerar, principalmente porque há sempre alguém a chegar. Sujeitos que param à saída de escadas rolantes demonstram um nível de alienação social que me irrita profundamente.

Ilustração: Salomé Gonzalez
Ilustração: Salomé Gonzalez

A palavra que procurava era essa: alienação. A característica de que a minha mãe falava através da metáfora do ponto-morto. A alienação que faz com que certos indivíduos circulem pela vida sem consciência sequer da sua própria existência.

Infelizmente, esses seres não se passeiam só por centros comerciais: partilham com deus o dom da ubiquidade. Nos passeios, tipicamente estreitos, dos centros urbanos portugueses, por norma há constrangimentos no trânsito. Ainda assim, essas pessoas ensandecidas insistem em sair de prédios, de lojas ou de qualquer outro buraco de onde se saia, diretamente para as calçadas pejadas de peões. Por conseguinte, acabam por esbarrar com pobres transeuntes, cuja merecida paz é perturbada pelos seus atos imprudentes, insensatos e egoístas, que resultam claramente da sua larga desconexão com a realidade. É uma espécie de divórcio sem consentimento com o senso comum, um desentendimento selvagem com as boas normas da convivência social. E em grande parte das vezes, o culpado mais notável por essa rutura é o telemóvel.

As mais recentes estatísticas indicam que cerca de 89% dos portugueses têm acesso à internet, e que por lá navegam, em média, cerca de 8 horas por dia, exatamente o mesmo tempo que dispõem nos seus trabalhos a tempo inteiro. Isso significa que há mais pessoas a exercer o seu direito de ficar em casa a ver vídeos de gatos nas redes sociais, do que a sair à rua para ir votar. É compreensível, ter dois trabalhos a tempo inteiro parece ser deveras extenuante. Além do mais, estamos perante indivíduos cujo tempo não se perde com situações concretas, como as que atravessam o mundo real. Votar é um ato de quem valoriza a democracia e, por isso, faz questão de transitar adequadamente. Não é para os tais, que no meio de nós, cá dentro ou lá fora, a pé ou de carro, tanto homens como mulheres: introduzem-se de repente e param inopinadamente, alteram subitamente a sua trajetória e retiram-se de supetão, como cartas baralhadas por uma mão invisível. A indiferença é a grande barreira entre a ordem e a desordem, entre a guerra e a paz. Contra a inépcia social e contra as violações grosseiras das regras de circulação, a luta continua.

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